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25 de janeiro de 2022

Que seja doce: 1º lugar em engenharia da computação é de ex-aluno do SESI

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O baiano Fagner Amado vendeu doces na escola para ajudar a família enquanto cursava o Ensino Médio e agora planeja um futuro nas exatas

Fagner estudava no SESI Reitor Miguel Calmon e sempre batalhou para ajudar a família e alcançar seus objetivos. Fotos Arquivo Pessoal

Por Marcella Trindade, Agência de Notícias da Indústria

Açúcar, coco, leite condensado e determinação. Essa foi a receita de Fagner Amado Lima para conquistar a tão sonhada vaga na universidade. O jovem, de 18 anos, estudava no SESI Reitor Miguel Calmon, em Salvador (BA), e sempre batalhou para ajudar a família e alcançar seus objetivos. 

Em 2015, quando cursava o 6º ano do Ensino Fundamental, Fagner iniciou os estudos na rede SESI. A experiência com a equipe de robótica, desde o primeiro ano na escola, despertou a paixão pela programação. 

Ele conta que, no começo, não sabia nada de robótica, mas, com o tempo, participou do desenvolvimento de projetos inovadores, pesquisas, competições e diferentes atividades.

Para Fagner, essas vivências abriram leques de oportunidades em sua vida e foram determinantes para que ele se encontrasse na área de exatas e escolhesse, anos depois, o curso de engenharia da computação.

O sabor do sonho 

De família humilde, Fagner é o segundo mais velho de quatro irmãos. A mãe, cabelereira, e o pai, atualmente motoboy, nunca mediram esforços para promover uma boa educação a eles. O jovem sentia, porém, necessidade de ajudar financeiramente a família. Para ajudar nas contas de casa, decidiu começar a vender doces na escola. 

Fagner lembra que conhecia uma receita de cocada que sua tia havia ensinado a ele. A primeira motivação para começar as vendas era comprar um celular e, assim, conseguir falar com os pais ao longo do dia.  

“Lembro que eu entrava na sala dos professores, vendia para aluno, vendia para todo mundo. Chegava tarde, porque era integral, ajudava a minha mãe arrumando as coisas de casa, pegava o açuquinha, o coco, ralava, mexia e fazia a minha cocada”, recorda. 

A compra do celular facilitou a rotina escolar de Fagner. Como o estudante não tinha acesso a computador, era com o aparelho que ele fazia os trabalhos da escola. 

“Até então, antes da pandemia, eu nunca tive um computador e aí eu precisava de alguma coisa pra fazer trabalho, pesquisar, essas coisas”, justifica. Daí Fagner passou a ter outros objetivos. Além da cocada, o jovem já vendeu trufa, bolo no pote, entre outras sobremesas. O dinheiro servia para a sua alimentação na escola e custeio de outras despesas. 

“A minha mãe sempre me dava o dinheiro pra eu comer no colégio, mas eu sabia que aquele dinheiro fazia falta no bolso dela, pesava. Eu conseguia fazer algumas coisas pra conseguir dinheiro e chegar em casa falando ‘mãe, não precisa do dinheiro’ e devolver o mesmo valor a ela”, relata. 

Em um período de maior dificuldade, Fagner passou a ir andando para a escola com o intuito de economizar o dinheiro que usaria para passagem. 

“Em um dos anos a condição ficou um pouco ruim, eu peguei e comecei a vir andando para o colégio. Eu moro numa rua muito escura, tem um caminho que você faz por baixo que é rápido, mas não é tão seguro e eu comecei a ir por ali pra economizar passagem”. 

Bom filho e aluno nota 10 

O jovem baiano sempre foi consciente da situação financeira dos pais e a lida diária deles foi motivo de inspiração para que Fagner nunca desistisse dos estudos.

“Eu sei a dificuldade que a minha mãe e o meu pai tiveram pra me colocar no colégio. Eles nunca me deixaram faltar nada, eu via a minha mãe chegando muito tarde do trabalho, tipo meia-noite, o meu pai da mesma forma, chegando de madrugada, a rotina deles era muito ativa pra sustentar quatro filhos”, explica.

Luci Ieda Amado, mãe de Fagner, desejava que o filho fosse médico. No entanto, ver o prodígio dele na área de exatas e programação fez com que ela apoiasse a sua escolha pela engenharia da computação.

Hoje, Luci fala com muita emoção e orgulho do filho. Ela diz que Fagner nunca deixou de sonhar, valorizava o esforço dos pais para que ele pudesse estudar e sempre se sacrificou para chegar onde chegou. “Como é muito emocionante falar do meu filho, a gente mora em um bairro periférico, onde a maioria das pessoas não chega a um faculdade, onde as pessoas não valorizam. Grande parte acha que não é possível chegar a esse lugar”.

Luci Ieda Amado, mãe de Fagner, fala com muita emoção e orgulho do filho

Na escola, Fagner também é motivo de orgulho. Para o professor de Geografia e Iniciação Científica Junior, Anderson Rodrigues, o estudante sempre foi questionador em sala de aula, maduro e acima da média, porque ele não se apegava à nota, mas sim à qualidade em aprender. 

“Ele sempre foi um jovem atuante, não se apegou às suas limitações financeiras, Fagner está sempre buscando superar e nunca se apegar a isso”, declara. 

A relação do jovem com a escola é muito forte. Ali, ele não apenas estudava, como também sonhava com uma vida melhor e se preparava para os futuros desafios. 

Futuro engenheiro da computação 

Fagner concluiu o Ensino Médio no final do ano de 2021, teve um excelente desempenho no vestibular de uma faculdade particular e conquistou o 1º lugar, o que garantiu a ele uma bolsa de 100% para cursar engenharia da computação, que sempre foi seu sonho. 

“Quando Fagner chegou com a notícia de que ele realmente já tinha ingressado e que ia fazer a matrícula foi, assim, um sonho. A gente não sabia se ria, se chorava, enfim, Fagner pra mim é um sonho”, declara a mãe do jovem. 

Felicidade e superação, essas são as sensações que o estudante teve ao saber da conquista acadêmica. “Nossa, eu cheguei aqui, eu consegui, apesar de todas as dificuldades”. 

A conquista de Fagner não é apenas sua, mas de toda família, que com a notícia, comemorou nas redes sociais e narrou a felicidade com declarações como “meu menino passou em engenharia”, “é o primeiro colocado”. 

“Hoje eu me sinto feliz porque o meu irmão pequeno me vê como inspiração. É revigorante você sentir que está inspirando outra pessoa com a sua história”, orgulha-se o baiano. 

A história de Fagner ainda pode ser mudada. Ele acredita que teve um bom desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Ao sair a nota, o estudante pode garantir vaga em uma universidade federal. Além disso, ele gostaria de continuar na rede, por isso, ingressar no SENAI Cimatec também está em seus planos. 

Em relação ao seu futuro, Fagner pretende terminar a faculdade e o curso técnico de mecatrônica que realiza no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), conseguir um emprego na área e dar continuidade aos estudos por meio de uma pós-graduação. 

“O conselho que eu dou às pessoas é continuem, se esforcem, que vai parecer difícil, vai parecer que não vai valer a pena, mas eles vão ver o fruto do que eles tão fazendo. É gratificante quando você vê que todo aquele trabalho valeu a pena. A dificuldade não é pra te parar, é pra te fortalecer”, concluiu o futuro engenheiro. 

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