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22 de maio de 2026

Práticas ESG ampliam impacto social e transformam relação da indústria com os territórios

ESG FIEB Sustentabilidade

Empresas baianas fortalecem ações voltadas à sustentabilidade, inclusão social, desenvolvimento comunitário e geração de oportunidades

Registro de um dos projetos do ciclo 2025 do Programa de Investimento Social da Renova (Renova Conecta).
 Foto cedida pela Renova.

As práticas ESG — sigla para Ambiental, Social e Governança — vêm assumindo papel cada vez mais estratégico no ambiente empresarial, especialmente pela capacidade de gerar impacto social positivo nos territórios onde as empresas atuam. Mais do que atender exigências regulatórias ou fortalecer reputação corporativa, a agenda ESG tem impulsionado iniciativas voltadas ao desenvolvimento comunitário, inclusão produtiva, educação ambiental, valorização cultural e fortalecimento das economias locais.

Na Bahia, empresas e instituições dos setores industrial, energético, mineral e de infraestrutura têm ampliado iniciativas voltadas à sustentabilidade ambiental, inclusão produtiva, diversidade, qualificação profissional e desenvolvimento comunitário, consolidando o ESG como elemento estratégico da sua atuação.

A agenda acompanha uma transformação global no modo como organizações são avaliadas por investidores, consumidores, governos e sociedade, pois cresce a cobrança por responsabilidade ambiental, transparência, governança ética e impacto social concreto. De acordo com a gerente de Sustentabilidade da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Arlinda Negreiros, o ESG do futuro será cada vez mais baseado em resultados concretos, indicadores verificáveis e impacto comprovado na vida das pessoas.

“Além dos ganhos ambientais e econômicos, a agenda ESG fortalece vínculos entre empresas e comunidades, amplia oportunidades de geração de renda e contribui para a construção de modelos de desenvolvimento mais sustentáveis e inclusivos”, afirma Arlinda.

Neste contexto, práticas relacionadas à diversidade, segurança do trabalho, gestão ambiental, e investimento social privado vêm ganhando espaço dentro das estratégias empresariais.

<<Arlinda Negreiros, gerente de Sustentabilidade da FIEB. Foto: Coperphoto/Sistema FIEB.

Casa dos Ventos apoia desenvolvimento comunitário

Um dos exemplos é o projeto desenvolvido pela Casa dos Ventos na comunidade quilombola de Gruta dos Brejões, localizada em Morro do Chapéu, próximo aos complexos eólicos Babilônia Sul e Babilônia Centro. A iniciativa resultou na construção de uma nova sede para a Associação de Moradores da comunidade, criada de forma colaborativa a partir de escuta ativa e participação dos moradores.

O espaço foi planejado para abrigar atividades sociais, culturais, produtivas e recepção turística, fortalecendo o ecoturismo, a geração de renda e a valorização da identidade local. Com investimento superior a R$ 1 milhão, o projeto também priorizou a contratação de fornecedores e mão de obra da própria região, ampliando o impacto econômico positivo no território.

Segundo José Borges, gerente de ESG da companhia, o objetivo é fazer com que os projetos de energia renovável deixem também um legado social duradouro. “Nosso compromisso vai além da geração de energia renovável. Trabalhamos para transformar os territórios onde atuamos em espaços de oportunidades, fortalecendo o capital social e valorizando as características locais”, afirma.

Investimento social privado (ISP) fortalece protagonismo local

Diferentemente das obrigações legais relacionadas ao licenciamento ambiental e compensações obrigatórias, o ISP é caracterizado pelo repasse voluntário e planejado de recursos para projetos de interesse público e transformação social de longo prazo. A Renova Energia vem investindo nesta modalidade com foco no desenvolvimento das comunidades do sudoeste da Bahia, região que sedia seus complexos eólicos. A empresa concentra esforços em programas voltados para a sustentabilidade, educação e capacitação local.

Na avaliação de Scheila Macedo, gerente de ESG e Sustentabilidade da companhia, “o verdadeiro impacto social ocorre quando os projetos fortalecem a autonomia e o protagonismo das comunidades, em vez de gerar relações de dependência”.

Os projetos são viabilizados por meio de editais lançados pela Renova Energia. Após as inscrições, as propostas são analisadas por uma comissão responsável pela seleção. Os projetos escolhidos assinam contrato com a companhia, que acompanha do desenvolvimento das ações. Na edição 2025 foram 14 projetos selecionados em seis municípios.

Entre as iniciativas apresentadas está o projeto “Brilho das Sapatilhas”, desenvolvido no distrito de Ceraíma, em Guanambi. Voltado para crianças e adolescentes, o projeto utiliza o balé infantil e a expressão corporal como ferramentas de desenvolvimento pessoal, fortalecimento da autoestima e promoção da convivência saudável. As atividades incluem aulas regulares de dança, ações educativas, integração com famílias e apresentações culturais.

Outra iniciativa é o “Recicla Mais”, desenvolvido em Caetité com foco em educação ambiental e fortalecimento da coleta seletiva. O projeto promove oficinas, jogos educativos e ações práticas sobre separação de resíduos, compostagem e reciclagem, envolvendo estudantes de cursos profissionalizantes, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e ensino superior. A proposta também inclui participação de cooperativas de coleta seletiva, fortalecendo a conscientização ambiental e a economia circular no território.

Acima, crianças do projeto Brilho das Sapatilhas

Descarbonização e infraestrutura sustentável

A Carbô Consultoria demonstra como projetos de infraestrutura de grande porte, como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Salvador, podem e devem integrar práticas de sustentabilidade robustas, com especial atenção ao inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE). 

O projeto do VLT tem cerca de 43 km de extensão total, sendo 25 km já em execução, e o inventário viabiliza a quantificação das emissões associadas a todas as fases do empreendimento – desde a construção e operação até a manutenção. O documento final também é uma ferramenta essencial para identificar oportunidades de mitigação, garantir transparência ambiental e facilitar o acesso a financiamentos verdes.

A iniciativa contribui para a conformidade ambiental, antecipa tendências globais de descarbonização e fortalece a credibilidade do empreendimento. “A descarbonização ainda é vista por muitas empresas como custo, quando, na verdade, é uma oportunidade”, pontua a diretora executiva da Carbô, Beatriz Pita.

Beatriz conta que, no caso do VLT, o projeto adota uma abordagem integrada de sustentabilidade, incluindo ações de reflorestamento e restauração ecológica em áreas de manguezais e Mata Atlântica, programas de educação ambiental para comunidades e escolas, e a criação do maior corredor verde urbano de Salvador. Essas medidas ajudam no sequestro de carbono, preservação da biodiversidade, melhoria da qualidade do ar e promoção do bem-estar urbano.

Ela acrescenta que a experiência do VLT de Salvador demonstra como grandes obras de infraestrutura podem combinar desenvolvimento econômico, responsabilidade ambiental e participação comunitária, consolidando-se como referência em desenvolvimento sustentável e transição para uma economia de baixo carbono.

Mudas de mangue cultivadas para plantio.
Equipe da Carbô atuando no inventário. Imagens cedidas pela Carbô Consultoria.

CBPM fortalece mineração sustentável e inclusiva

Outro destaque da agenda ESG na Bahia é a atuação da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), que vem consolidando práticas voltadas à mineração responsável, alinhadas aos pilares ambiental, social e de governança. A Companhia entende que o desenvolvimento do setor mineral deve ocorrer de forma integrada à sustentabilidade, à inovação e à inclusão social, desenvolvendo projetos em parceria com empresas que compartilham essa mesma visão.

No eixo ambiental, a CBPM participa de iniciativas voltadas à transição energética e à redução dos impactos ambientais da atividade mineral. Entre os principais projetos está o Ferro Verde, desenvolvido pela Brazil Iron, destinado à produção de Ferro Briquetado a Quente (HBI), considerado estratégico para a descarbonização da indústria global do aço. A tecnologia permitirá substituir fornos a carvão por fornos elétricos capazes de reduzir em até 99% as emissões de dióxido de carbono no processo produtivo.

Outro destaque é a parceria com a Homerun Brasil para implantação, na Bahia, da primeira fábrica de vidro solar fora da China. O projeto utilizará areia silicosa de Belmonte para produção de painéis fotovoltaicos de alta performance, fortalecendo a cadeia de energias renováveis e ampliando a participação baiana na transição energética global.

Base regulatória – O marco regulatório e normativo do ESG industrial no Brasil vem sendo fortalecido pela atuação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), especialmente com a criação da ABNT PR 2030, que orienta empresas na integração estruturada de práticas ambientais, sociais e de governança à gestão organizacional. A norma oferece diretrizes para avaliação de maturidade, integração estratégica e monitoramento de desempenho ESG, tornando-se referência importante para o setor industrial.

Além dela, diversas normas ISO contribuem para operacionalizar o ESG nas indústrias, como a ISO 14001, ISO 50001 e a série ISO 59000, voltadas à gestão ambiental e economia circular; a ISO 45001, relacionada à saúde e segurança ocupacional; a ISO 26000, sobre responsabilidade social; e as ISO 37301, ISO 37001 e ISO 31000, ligadas a compliance, antissuborno e gestão de riscos.

Arlinda Negreiros explica que, embora essas certificações não tenham sido criadas especificamente para ESG, elas funcionam como instrumentos práticos para implementação de boas práticas ambientais, sociais e de governança. “Sua adoção representa uma mudança significativa na gestão empresarial, ao incorporar a sustentabilidade à estratégia e à lógica financeira das organizações, ampliando a responsabilização das empresas sobre seus impactos, riscos e externalidades”.

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