20 anos, muitas histórias, um legado: a Robótica que transforma vidas no SESI Bahia
Pioneiro na Robótica Educacional, SESI Bahia constrói ao longo de duas décadas uma trajetória marcada por inovação, conquistas e oportunidades que ultrapassam os muros da escola

Há 20 anos, a Robótica Educacional passou a fazer parte da história do SESI Bahia. O que começou como uma proposta inovadora de aprendizagem se consolidou, ao longo de duas décadas, como uma das marcas da instituição e como uma ferramenta capaz de transformar a relação dos estudantes com o conhecimento — e, em muitos casos, com o próprio futuro.
Mais do que ensinar programação, montagem e tecnologia, a robótica criou um ambiente de experimentação, criatividade, colaboração e protagonismo. Nas salas de aula e nas equipes de competição, estudantes aprenderam a resolver problemas, lidar com erros, trabalhar em grupo, comunicar ideias e acreditar em suas próprias capacidades.

Para Fernando Didier, da equipe da Robótica do SESI Bahia, que acompanha o projeto desde 2013 e tem 17 anos de atuação na instituição, essa transformação pode ser percebida diariamente.
“A Robótica Educacional é uma metodologia que desperta o interesse dos estudantes de maneira muito espontânea. A curiosidade, o desafio e a possibilidade de ver as ideias ganhando vida fazem com que eles queiram aprender cada vez mais”, afirma.
A evolução do projeto foi acompanhada pelo crescimento dos professores, que passaram a incorporar a tecnologia às práticas pedagógicas, tornando o aprendizado mais prático e significativo, e pelas conquistas no cenário competitivo. De metodologia e ambiente de aprendizagem hoje a robótica educacional é componente curricular.
Dois anos após a implantação, final de 2008, iniciava o processo de competições com estudantes que se destacavam no interesse e nas capacidades de programação e prototipagem de robôs. Entre os momentos destacados por Didier está a classificação da Escola SESI Reitor Miguel Calmon para uma competição internacional na modalidade STEM Racing em Abu Dhabi, em 2019.
No mesmo ano, outro capítulo importante foi escrito pela equipe Robolife, que conquistou o primeiro lugar na categoria FLL após uma década de participação nos torneios. Para Didier, a conquista simbolizou a força da perseverança e da evolução construída ao longo dos anos.
“Cada conquista e cada obstáculo deixaram ensinamentos valiosos. Aprendi que a inovação exige constante capacidade de adaptação e que o sucesso da Robótica Educacional está diretamente ligado ao compromisso de todos que acreditam no seu potencial transformador”, destaca Didier.
Aprendizagem que vai muito além da tecnologia
A história do professor Robson Nunes ajuda a traduzir, de forma concreta, como a robótica também transforma quem está do outro lado da sala de aula. Professor de Biologia e técnico da equipe Sevenspeed, da modalidade STEM Racing, na Escola SESI Retiro, Robson chegou à robótica por um caminho que revela justamente a amplitude dessa área.
“Eu vou começar respondendo a uma pergunta que todo mundo faz nos quatro cantos do Brasil: como é que um biólogo foi parar na robótica?”, brinca.
A resposta está na pesquisa — uma dimensão nem sempre percebida por quem associa a robótica apenas à construção e à programação de robôs. “Quando eu cheguei ao SESI, fui procurado por alguns alunos para ajudá-los em uma pesquisa. A pesquisa também faz parte da robótica, é uma parte gigantesca, que às vezes as pessoas não veem, só veem o robô”, conta.
A experiência levou Robson, no ano seguinte, a assumir a função de técnico de uma equipe da FIRST LEGO League (FLL). Logo em sua primeira temporada, viveu uma conquista marcante: foi campeão com a equipe. Nos anos seguintes, veio uma classificação para a etapa nacional. Depois, mudou de categoria e passou a atuar na Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), conquistando também dois títulos regionais.
Foi nesse percurso que acompanhou de perto a consolidação da robótica como disciplina no SESI Bahia. Na sequência, Robson recebeu outro desafio: atuar em uma nova modalidade, que na época era conhecida como F1 in Schools e hoje é chamada de STEM Racing. Foi nesse universo que a trajetória ganhou dimensão internacional. A equipe Sevenspeed conquistou três títulos nacionais, resultados que abriram as portas para a participação em eventos internacionais.
Mas, para Robson, todas essas conquistas representam apenas uma parte da história. “O melhor resultado é acompanhar esses alunos de perto. Eles chegam tímidos, inseguros, sem acreditar no seu potencial, e, ao longo do processo, você vê essa chave virar. Esse aluno passa a se comunicar melhor, a liderar, a trabalhar em equipe, a resolver problemas reais. Isso dá mais orgulho do que troféu e medalha”, diz.
A fala sintetiza uma dimensão essencial da Robótica Educacional no SESI Bahia. O objetivo não está apenas em formar bons competidores ou ensinar competências técnicas, mas em contribuir para que crianças e jovens desenvolvam confiança, autonomia, responsabilidade e capacidade de transformar desafios em possibilidades.


“Acreditar que esses alunos, que esses jovens, vão desenvolver confiança, autonomia, senso de responsabilidade é pensar que eu, como educador, estou conseguindo realizar meu sonho, que é transformar o mundo. Essa é a minha maior conquista, é a realização de um sonho de educador”, destaca Robson.
Com esse espírito que o crescimento de equipes de robótica em todas as escolas da Rede SESI Bahia fez surgir a LIGA SESI de robótica com o objetivo de promover formação, trocas entre equipes e técnicos, e práticas do Core Values, os valores fundamentais do principal torneio da Liga, a First LEGO League – FLL, que significam explorar a descoberta com novas habilidades e ideias; fazer a inovação na busca de solução de problemas; Impacto nas aplicações do que aprendem para melhorar o mundo; inclusão com respeito as diferenças; Trabalho em Equipe exercitando a cooperação como uma força mesmo em competições e a Diversão, celebrando sempre as conquistas que estão além de prêmios.

Histórias que continuam depois da escola
A história da robótica, portanto, não é feita apenas de troféus. Talvez uma das maiores contribuições dessa área do conhecimento seja justamente aquilo que não aparece em uma planilha de resultados ou em uma cerimônia de premiação: a transformação pessoal dos estudantes.
Essa transformação pode ser percebida nas histórias de ex-alunos que seguiram caminhos profissionais e acadêmicos influenciados pelas experiências vividas na robótica. A trajetória de Graziele Evelin dos Santos, de 21 anos, é um exemplo de como esse ciclo pode continuar mesmo depois da saída da escola.


Sua trajetória com o SESI começou em 2013, na Escola SESI Candeias. Em 2017, integrou a equipe RoboLife e teve sua primeira experiência na FIRST LEGO League (FLL). Mais tarde, entre 2020 e 2022, participou das equipes Sputnik e Hydra, no SESI Piatã, competindo na FIRST Tech Challenge (FTC).
As experiências ajudaram Graziele a descobrir uma área que mudaria sua trajetória profissional: a Mecatrônica. Ela cursou formação técnica no SENAI CIMATEC e, posteriormente, ingressou em Engenharia Mecânica, como bolsista integral.
Para ela, porém, a robótica ensinou muito mais do que conhecimentos técnicos. “Aprendi a me comunicar melhor, a falar em público, a trabalhar em equipe, a lidar com desafios e, principalmente, a acreditar mais em mim mesma”, conta.
Hoje, ela atua como uma das técnicas da equipe de garagem Black Gold, em Candeias. Aos sábados, das 8h às 12h, acompanha crianças e adolescentes de 9 a 15 anos, de diferentes escolas, que se preparam para a FIRST LEGO League.
A experiência tem um significado especial: oferecer a outras crianças oportunidades semelhantes às que ela recebeu. “Se a robótica mudou a minha história, hoje eu quero ajudar a transformar a história de outras crianças por meio dela”, afirma.
Geovane: metade da vida dedicada à robótica
Aos 24 anos, Geovane de Souza Santos olha para trás e percebe que a robótica ocupa praticamente metade de sua vida. Ex-aluno da Escola SESI Reitor Miguel Calmon, entrou na instituição em 2014, no sétimo ano. Foi nas aulas de Ciência e Tecnologia que teve o primeiro contato com a robótica. “Ali eu me apaixonei”, resume.
No final daquele ano, ingressou na primeira equipe, a TecSab. Depois, passou pela TecGold e pela LoveTech, até criar, em 2019, ao lado de cinco amigos, a Seven Speed. Naquele ano, o grupo viveu um dos momentos mais importantes da trajetória. A equipe foi campeã nacional na modalidade STEM Racing — então conhecida como F1 in Schools — e conquistou o direito de representar o Brasil em uma competição mundial, realizada em Abu Dhabi.
A conquista foi o ponto alto de uma trajetória que também inclui participação em torneios nacionais da FLL, títulos na Olimpíada Brasileira de Robótica e participação na Olimpíada do Conhecimento.


Mas, para Geovane, o maior legado não está apenas nos resultados competitivos. Depois da pandemia, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursa Licenciatura em Matemática. Paralelamente, transformou a experiência acumulada como competidor em atuação profissional na educação tecnológica.
Hoje, trabalha com formação e acompanhamento pedagógico, atendendo escolas da Bahia, além de atuar como juiz e chefe de juízes em competições de robótica e como apresentador de torneios nacionais.
“A percepção do impacto que a robótica pode ter na vida do estudante fez com que eu quisesse levar esse impacto para um aluno, para dez, para vinte alunos que pudessem ser impactados também”, explica.
Da sala de aula ao trabalho no SESI
João Vitor, 21 anos, ingressou no SESI em 2013, ainda no terceiro ano do Ensino Fundamental I. Foi ali que conheceu um universo marcado por tecnologia, inovação e novas possibilidades. “Foi paixão à primeira vista. Desde aquele momento, eu não consegui mais largar a robótica”, lembra.
A partir do sexto ano, passou a integrar as equipes extracurriculares e continuou acompanhando a Robótica Educacional em sala de aula até o terceiro ano do Ensino Médio. Ao concluir a trajetória como estudante, imaginou que precisaria se afastar daquele universo. A oportunidade de um estágio no SESI, porém, abriu uma nova porta.
Na Sala Maker do SESI Retiro, João Vitor pôde colocar em prática e aperfeiçoar competências desenvolvidas durante os anos de robótica. Depois do estágio, foi efetivado pela instituição. Hoje, continua trabalhando com equipes de robótica e com uma área que começou a fazer parte de sua vida ainda na infância.
“Olhar para toda essa trajetória e perceber que aquilo que começou lá no Ensino Fundamental hoje faz parte da minha profissão é algo muito especial para mim”, afirma.

Um legado que continua sendo construído
As histórias de Graziele, Geovane e João Vitor representam diferentes caminhos possíveis a partir da experiência com a robótica. São trajetórias que ajudam a explicar por que, para Fernando Didier, o verdadeiro legado da Robótica Educacional não pode ser medido somente pela quantidade de torneios, medalhas ou troféus conquistados.
“Cada vez que encontro um ex-aluno compartilhando suas conquistas, ingressando em uma universidade, iniciando uma carreira de sucesso ou simplesmente relatando o quanto a robótica contribuiu para sua formação, tenho a certeza de que todo o esforço vale a pena”, afirma.
Ao completar 20 anos, o projeto olha para o futuro com a mesma disposição para inovar que marcou sua origem. Para Armando Neto, Diretor Superintendente SESI, a satisfação é perceber que todo o investimento e esforços contínuos valem a pena porque a aprendizagem desses estudantes ultrapassa a formação acadêmica escolar: “ não tenho dúvida do ganho na vida de cada um para as escolhas profissionais e sucesso na vida, na escolha que fizeram”.
A Superintendente de educação e Cultura do SESI, Clessia Lobo, presente na prática da robótica desde o início, foi a responsável pela primeira turma de formação de professores , em março de 2026, quando ainda era assessora de educação na época, e lembra o sentimento de insegurança dos professores e coordenadores pedagógicos, pelo novo especialmente pela característica tecnológica e de linguagem de programação que parecia que iriam demorar para aprenderem: “A pergunta que fizeram quando abriram os kits com mais de mil peças da LEGO, sensores, engrenagens, cabos e o bloco programável era se não precisariam de formação em engenharia elétrica ou eletrônica para saberem mediar os estudantes, e respondemos que não, teriam que exercitar o aprender fazendo da metodologia e o aprender junto, e que logo dominariam conceitos básicos porque quem iria mesmo dar show de curiosidade e agilidade de lidar com recursos tecnológicos, seria os estudantes”. Muitas ações nas práticas das aulas foram aprimoradas ao longo desses anos e a formação docente sempre foi uma das prioridades.

Outra visão sobre educar
Nesse percurso, o professor também ganha um novo papel: o de parceiro na construção do conhecimento. A tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa, mas são as relações humanas que dão significado ao processo de aprendizagem. É na troca entre professores e alunos que a inovação ganha propósito.
E o depoimento de Robson reforça justamente essa ideia. Depois de duas décadas, a pergunta mais importante talvez não seja quantos robôs foram construídos, quantas competições foram vencidas ou quantas medalhas foram conquistadas, mas quantos jovens descobriram, nesse processo, que eram capazes de ir além do que imaginavam.
Depois de duas décadas, a Robótica Educacional tornou-se parte da identidade do SESI Bahia. Está presente na sala de aula, nos projetos, nas equipes, nas competições e, principalmente, nas histórias de quem passou por ela.
São 20 anos de uma história construída por professores, estudantes, famílias, equipes e profissionais que acreditaram — e continuam acreditando — que aprender também pode significar experimentar, criar, errar, tentar novamente e transformar uma ideia em realidade.
No fim, o maior resultado talvez esteja justamente nas vidas que seguem adiante levando consigo aquilo que aprenderam com a robótica. Como resume Robson Nunes, é nessa transformação que está a verdadeira conquista do educador: enxergar potencial em um estudante, ajudá-lo a acreditar em si mesmo e acompanhar o momento em que essa confiança se transforma em autonomia.
Duas décadas depois, as tecnologias continuam avançando, mas permanece o propósito que sustenta essa trajetória: transformar conhecimento em oportunidades e oportunidades em novas histórias de vida.
