Seminário da FIEB destaca oportunidades do Acordo Mercosul-União Europeia para a indústria baiana
Salvador recebeu, nesta terça-feira (3), o seminário “Acordo Mercosul-União Europeia: perspectivas, oportunidades e impactos para a economia brasileira e baiana”, promovido pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), por meio do Centro Internacional de Negócios (CIN) e do Conselho de Comércio Exterior (COMEX). O evento reuniu representantes do governo, entidades empresariais, especialistas em comércio internacional e lideranças do setor produtivo para debater os efeitos do tratado considerado um dos mais importantes da história recente do comércio global.

Com um mercado potencial de cerca de 720 milhões de consumidores e Produto Interno Bruto (PIB) agregado de aproximadamente US$ 22 trilhões, o acordo entre Mercosul e União Europeia foi concluído politicamente no fim de 2024 e formalmente assinado em janeiro de 2025, encerrando mais de 25 anos de negociações iniciadas em 1999.
Na abertura do encontro, o presidente da FIEB, Carlos Henrique Passos, destacou a relevância do acordo em um cenário internacional marcado por incertezas e pelo recrudescimento de medidas protecionistas. Segundo ele, a ampliação de mercados é estratégica para empresas exportadoras e importadoras.
“Estamos vendo a volta das discussões sobre tarifas em diversas economias e, certamente, uma das medidas mais importantes para quem exporta ou importa é encontrar novos mercados. Temos aqui uma oportunidade de compreender como tornar esse mercado mais ativo e construir relações que potencializem os negócios e o desenvolvimento econômico e social”, afirmou.
Passos também ressaltou os desafios enfrentados pela indústria brasileira, citando questões relacionadas à competitividade, custos e mudanças regulatórias que impactam o ambiente de negócios.
Oportunidades para a indústria
Um dos destaques da programação foi a apresentação da gerente de Comércio e Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Constanza Negri. Ela ressaltou que o acordo vai muito além da redução de tarifas e cria condições para uma integração econômica mais profunda entre os blocos.
Segundo a especialista, uma das principais demandas da indústria brasileira foi atendida durante as negociações: a redução gradual das tarifas para produtos europeus que entrarão no mercado brasileiro, em períodos que variam entre 10 e 15 anos. Já para diversos produtos brasileiros destinados à União Europeia, os benefícios tarifários ocorrerão desde o início da implementação do acordo.
“O acordo traz oportunidades imediatas para exportadores brasileiros, além de medidas voltadas à promoção de investimentos, comércio de serviços, cooperação regulatória e facilitação de negócios. Também prevê mecanismos específicos para apoiar pequenas empresas, ampliando o acesso às informações e ao financiamento”, explicou.
Constanza destacou ainda que o tratado pode contribuir para recuperar parte da relevância da União Europeia como destino das exportações baianas, fortalecendo relações comerciais de longo prazo.
Bahia precisa se preparar para exigências europeias
Durante o painel sobre impactos regionais, o superintendente da FIEB, Vladson Menezes, afirmou que os benefícios do acordo vão além da redução tarifária. Para ele, a Bahia precisa se preparar para atender às exigências ambientais e de certificação impostas pelo mercado europeu.
Entre os produtos baianos mais exportados para a União Europeia estão celulose, soja e derivados, além de produtos minerais. Segundo Menezes, a implementação de novas regras europeias de rastreabilidade e sustentabilidade exigirá adequações por parte das empresas.
“A União Europeia facilita o comércio, mas não flexibiliza suas exigências ambientais. Precisamos avançar em certificações, rastreabilidade e conformidade para aproveitar plenamente as oportunidades que serão abertas”, observou.
O executivo também chamou atenção para os impactos sobre a cadeia petroquímica, que poderá enfrentar maior concorrência em alguns segmentos, mas também ganhar competitividade com a redução dos custos de importação de equipamentos, catalisadores e insumos industriais.
Transição energética como diferencial competitivo
A agenda da transição energética apareceu como um dos principais temas do seminário. O diretor-presidente da Bahiainveste, Paulo Guimarães, destacou o potencial da Bahia para atrair investimentos relacionados à economia verde.
Segundo ele, a presença histórica de empresas europeias no estado e o protagonismo baiano na geração de energia eólica e solar criam condições favoráveis para novos investimentos ligados à produção sustentável.
“A Europa possui tecnologia e o Brasil dispõe de recursos naturais abundantes. Hoje já existe uma visão compartilhada de que a agregação de valor deve ocorrer localmente, gerando desenvolvimento industrial e exportação de produtos de maior valor agregado”, afirmou.
Guimarães também ressaltou a necessidade de adaptação das pequenas e médias empresas às exigências regulatórias europeias, especialmente em áreas como sustentabilidade, rastreabilidade e conformidade trabalhista.
Além da indústria, o executivo apontou oportunidades para o setor de serviços, especialmente turismo e hotelaria, impulsionadas pelo fortalecimento das relações econômicas entre os dois blocos.
Acordo histórico
O especialista em comércio internacional Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e um dos palestrantes do evento, relembrou o longo processo de negociação do acordo, iniciado há mais de duas décadas.
Segundo ele, o tratado representa um marco para a integração econômica entre Mercosul e União Europeia e foi impulsionado pelas mudanças recentes no cenário internacional.
Barral explicou que a União Europeia se comprometeu a eliminar tarifas para cerca de 92% das exportações do Mercosul, embora alguns produtos agrícolas considerados sensíveis continuem sujeitos a cotas e regras específicas de acesso ao mercado europeu.
“O acordo vai muito além da questão tarifária. Ele cria mecanismos de cooperação, previsibilidade regulatória e integração econômica que podem gerar impactos significativos para os países do Mercosul nos próximos anos”, avaliou.
Perspectivas
Dados apresentados durante o seminário mostram que a entrada em vigor do acordo poderá abrir 543 oportunidades de exportação para produtos brasileiros com redução tarifária imediata, segundo levantamento da ApexBrasil. Os setores mais beneficiados incluem máquinas e equipamentos, produtos manufaturados, químicos e alimentos.
No agronegócio, o tratado prevê eliminação total ou gradual de tarifas para diversos produtos, além de cotas preferenciais para itens como carnes, açúcar, etanol, arroz, milho, mel, queijos e cachaça.
A expectativa dos participantes é que o acordo amplie a competitividade das empresas brasileiras, estimule investimentos estrangeiros, fortaleça a diversificação da pauta exportadora e aumente a segurança jurídica para os negócios.
Para a Bahia, o consenso entre os especialistas é de que o sucesso dependerá da capacidade de adaptação das empresas às novas exigências internacionais, especialmente nas áreas de sustentabilidade, certificação e inovação tecnológica.

