Tecle ENTER para pesquisar ou ESC para sair

NOTÍCIAS

6 de março de 2026

Força feminina move pequenos negócios em Morro do Chapéu, redesenhando a indústria local

Economia FIEB Interiorização

Carolina Mendonça

Produções de vinhos, biscoito e licores são exemplos de empreendimentos que promovem desenvolvimento econômico, social e cultural na Chapada

Parreiral da Fazenda Santa Maria já não é novidade em Morro, que abriga outras vinícolas.
Comunidade de Mônica, a 35 quilômetros de Morro do Chapéu, onde funciona a Sabor da Roça.

Com imagens historicamente associadas a homens, chaminés e fumaça, a indústria ainda é, de fato, um setor dominado pelo trabalho masculino. De acordo com o estudo mais recente sobre o assunto (2023), feito pelo Observatório Nacional da Indústria, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as mulheres representam 25% dos trabalhadores e vêm ampliando presença em cargos de liderança (31,8%).

Para além de índices e percentuais, as trajetórias de mulheres à frente de pequenos empreendimentos em Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, mostram que a produção industrial nem sempre precisa “escalar” para gerar impacto na economia local. Um dos exemplos desse protagonismo é a Vinícola Santa Maria, fundada pelas irmãs Laura Oliveira e Mayra Nunes.

A Santa Maria comercializa vinhos de sete variedades de uvas.
Merlot é uma das uvas cultivadas na fazenda, em Morro do Chapéu.
Laura Oliveira, uma das sócias que toca o negócio na fazenda.

O empreendimento nasceu a partir de um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que avaliou a viabilidade do cultivo de uvas viníferas na região, cujas condições climáticas se assemelham às de Bordeaux, na França. O que começou como experimento científico tornou-se negócio familiar. Oficializada em 2020, com investimento inicial de cerca de R$ 50 mil, a vinícola produz até sete mil garrafas por ano, em dois ciclos de safra. Agora, investe no turismo do vinho, com visitas guiadas, receptivo e eventos para diversificar o negócio. 

“Foi um mundo totalmente novo para nós. Não fazíamos parte do universo do vinho, mas fomos nos apaixonando durante o estudo. Decidimos encarar o desafio”, relata Laura, que destaca a participação de toda a família na condução do projeto. Ela também reconhece os percalços de atuar em um setor predominantemente masculino. “Inicialmente, há um estranhamento, né? Hoje, tenho muito mais segurança. Entendo mais do negócio, sei o que ele demanda e sei o que pedir”, afirma.

O estabelecimento da Santa Maria, que ganhou o nome por conta da fé familiar em Santa Maria do Ouro, e de outras pequenas vinícolas, em Morro do Chapéu, colocou a cidade na rota do enoturismo brasileiro, movimentando o comércio e os serviços locais. “É outra cidade. Nos últimos anos, a paisagem mudou completamente. Muitos negócios novos abriram e estão abrindo”, comentou o sócio da Vinícola Sertânia, Marcos Barberino, durante encontro do setor vitivinícola na FIEB, realizado em fevereiro.

Associativismo e geração de renda

Outra liderança feminina em Morro do Chapéu é Sebastiana Figueiredo, 64, presidente da Associação Comunitária e Assistencial dos Pequenos Agropecuaristas de Mônica – Acapam, que, há cerca de três anos produz mensalmente quase 30 mil pacotes de biscoito avoador à base de tapioca com a agroindústria Sabor da Roça.

Sebastiana, a presidente da Associação que criou a Sabor da Roça.
Biscoitos são moldados em máquina manual. Produção é de 30 mil pacotes/mês.
Avoadores são vendidos em 40 pontos comerciais na Bahia e fora do estado.

Gerada a partir de uma pequena cozinha que servia sopas para os associados da comunidade de Mônica, a 35 quilômetros de Morro do Chapéu, com recursos de um edital da Companhia Nacional de Abastecimento – CAR, nasceu a fábrica, que oferece trabalho para 15 moradores do povoado, a maioria de mulheres. Elas, que antes trabalhavam em culturas extrativistas, ganhando cerca de R$ 35 semanais, atualmente recebem R$ 1.400 por mês, em média. “Mudou radicalmente a vida dessas pessoas, temos fila de gente esperando uma vaga para trabalhar aqui”, conta Dona Aninha, como é chamada a presidente da Acapam.

O biscoito avoador da Sabor da Roça é sucesso e já tem mais de 40 pontos de vendas, tanto em estabelecimentos da região como em outras cidades, a exemplo de Camaçari e Feira de Santana, e está presente também nos estados de Pernambuco e São Paulo. Utilizando matéria prima comprada – ovos, óleo de soja e tapioca -, a Acapam já pensa em construir um galinheiro e plantar mandioca para, futuramente, reduzir custos e aumentar a produção.

 “Temos um gerente que veio com experiência de vendas e conseguimos, por meio de outro edital, a contratação de uma agente de negócios. Estamos apenas começando, mas estamos de olho no futuro. Eu acredito muito no trabalho feminino”, celebra Sebastiana.

Assim como em outros segmentos produtivos, o associativismo ainda é um desafio. “Não é fácil conduzir uma associação. Cada comunidade tem uma realidade diferente e muitos ainda não percebem a força do coletivo e de atuar de forma conjunta e organizada. Aqui, a luta é de todos, e o ganho também”, acrescenta.

Tradição cultural que virou negócio

Com uma receitada herdada da avó, Maria Goretti Dourado seguiu a tradição familiar de fazer licor para o período do São João. A fama da bebida se espalhou entre amigos e familiares, que passaram a pedir mais da iguaria de Dona Goi, como é conhecida. “Os filhos cresceram, amigos foram chegando, veio universidade, as festas, e o licor se popularizou através deles. Os outros produtos são consequência, uma coisa puxou outra”, conta a empreendedora, que também fabrica geleias e doces de frutas da sua fazenda.

O trabalho para fabricar o licor mais conhecido da região é artesanal e ela cuida de quase tudo: confecção, embalagem e divulgação dos produtos, vendidos em vários pontos de Morro do Chapéu. Apesar de terem “uma boa saída, especialmente entre junho e dezembro”, de acordo com Goretti, ela acredita que os artesanais ainda não são valorizados como merecem. No entanto, quando se faz o que gosta, tudo é gratificante, ela avalia. “Se ama faça, caia de cabeça, não existe trabalho sem momentos difíceis. Devagar se vai ao longe”, aconselha.

Licores são o carro-chefe da produção artesanal da Dona Goi.

Morro do Chapéu: indústria como motor econômico

Na Chapada Diamantina, o município de Morro do Chapéu se destaca pelo protagonismo industrial. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) analisados pelo Observatório da Indústria da Bahia, da FIEB, a indústria responde por cerca de 45% do PIB municipal, peso quase duas vezes superior ao da Administração Pública — um dado que destoa da realidade de muitos municípios baianos, que em geral são mais dependentes do setor público.

A Construção lidera a geração de empregos industriais, seguida pelo segmento de Fabricação de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos. O município tem se destacado no cenário energético brasileiro por sua capacidade de geração eólica. “Morro do Chapéu e região estão bem colocados para continuar sendo polo de investimentos em energia renovável, graças a fatores naturais, como o elevado potencial de ventos constantes e favoráveis à geração de energia eólica. Além disso, já conta com grandes projetos implantados, infraestrutura de transmissão e apoio de importantes agentes econômicos do setor”, de acordo com Natali Paz, economista do Observatório da Indústria da Bahia.

Ainda segundo o levantamento da FIEB, o município tem se posicionado como um polo turístico em ascensão, incluindo ecoturismo e enoturismo com vinícolas emergentes. Subiu de categoria no Mapa do Turismo Brasileiro, o que melhora seu acesso a investimentos e infraestrutura turística. Projetos de qualificação e turismo inteligente estão em andamento para ampliar oferta e infraestrutura turística.

Federação oferece serviços de apoio a indústrias de pequena escala

Mesmo que não tenha uma unidade instalada, a Federação das Indústrias faz seus serviços chegarem à várias regiões do estado. Por meio da sua Coordenação de Pequenas e Médias Indústrias (PMI), a FIEB disponibiliza o Núcleo de Acesso ao Crédito (NAC), que presta assessoria gratuita e personalizada para facilitar a obtenção de crédito, orientando na escolha das melhores linhas e na interlocução com instituições financeiras. “O atendimento é regionalizado, com presença em dez municípios do estado”, explica o coordenador Bruno Kieckhofer.

Na área de regularização, a Gerência de Desenvolvimento Sustentável (GDS) apoia processos ambientais e sanitários, além de orientar sobre a emissão do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), contribuindo para a conformidade legal e a atuação responsável das empresas.

Para expansão internacional, o Centro Internacional de Negócios (CIN) auxilia nos processos de exportação, licenças e identificação de mercados, preparando as indústrias para competir globalmente.

Já a Gerência de Relações Sindicais (GRS) fortalece o associativismo empresarial, promovendo a integração aos sindicatos do setor e ampliando a representatividade institucional das indústrias.

FIEB, localizada em Salvador, consegue levar serviços ao interior do estado. Foto: Coperphoto/Sistema FIEB

Notícias relacionadas