Em Salvador, IBGE inaugura novo ciclo de debates sobre o futuro dos dados no Brasil

A Bahia se tornou, nesta semana, o centro do debate sobre soberania e governança de dados ao sediar, pela primeira vez fora do Rio de Janeiro, a principal conferência do IBGE desde 1968. De 3 a 5 de dezembro, Salvador recebe a CONFEST/CONFEGE 2025, considerada o maior evento da América Latina voltado a usuários e produtores de dados. Evento está sendo realizado no SENAI Cimatec e no SESI Djalma Pessoa.
A escolha da capital baiana marca um momento simbólico para o país e reforça o movimento de reposicionamento do IBGE como protagonista na produção, organização e proteção das informações estratégicas em um cenário de rápidas transformações tecnológicas.
Na abertura, realizada nesta quarta-feira (3), o IBGE firmou com a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) e o SENAI Cimatec um acordo de cooperação técnica destinado ao compartilhamento de dados, à elaboração de estudos e à qualificação profissional. O Governo da Bahia, por meio da Saeb, assinou a adesão ao projeto Casa Brasil IBGE, que funcionará no SAC Comércio, ampliando o acesso da população a serviços e informações oficiais. Durante a cerimônia, o IBGE também entregou ao estado o Atlas Milton Santos — uma coleção de mapas e análises sobre as características naturais, econômicas e sociais do território brasileiro — que ficará disponível na Escola SESI Djalma Pessoa.
Base de Inteligência como norteador de planejamento
Com mais de três mil participantes presenciais confirmados, entre eles cerca de mil pesquisadores e técnicos do Brasil e do exterior, a conferência acontece num momento que o próprio IBGE classifica como decisivo: a transição para uma Era Digital na qual a soberania e a governança de dados passam a ter relevância equivalente à que o petróleo teve na Era Industrial. Segundo o instituto, 78% dos dados produzidos no Brasil são hoje processados e armazenados fora do país, o que acende alerta sobre dependência tecnológica, segurança e autonomia.
Ao longo dos debates, o IBGE apresenta diretrizes centradas na proteção, na centralidade e na governança dos dados nacionais, com destaque para o fortalecimento do Sistema Nacional de Geociências, Estatística e Dados (Singed). A proposta inclui integrar bases de diferentes órgãos governamentais, aprimorar análises estatísticas e geocientíficas, reduzir a dependência de processamento externo e ampliar a capacidade do Estado de formular políticas públicas baseadas em evidências. O esforço também mira o combate à desinformação e a construção de um ambiente digital mais seguro e soberano.
O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, ressaltou que a conferência tem papel estratégico na definição das prioridades estatísticas e geoespaciais do país para o próximo quinquênio, de 2026 a 2030. Para ele, o caráter participativo do encontro é fundamental: “É o momento em que o IBGE alinha suas ações às demandas da sociedade, às exigências de proteção de dados e aos avanços tecnológicos. As diretrizes que saírem daqui garantirão que o país disponha de informações robustas para orientar políticas públicas, reduzir desigualdades e cumprir compromissos globais.” Pochmann também lembrou que o Brasil reúne dados estatísticos de forma organizada desde 1974 e que, meio século depois, enfrenta o desafio de produzir um retrato cada vez mais preciso de uma sociedade hiperconectada.
Autoridades e representantes das instituições parceiras destacaram o papel do evento no fortalecimento da inteligência estratégica brasileira. O governador Jerônimo Rodrigues reforçou a necessidade de fortalecer um sistema único de informações capaz de orientar políticas públicas de forma precisa e integrada. “Precisamos fortalecer um sistema que seja um guia de políticas para a equidade e a diminuição das desigualdades regionais.”
Já o presidente da FIEB, Carlos Henrique Passos, afirmou que o IBGE é mais do que um repositório de dados: é um orientador fundamental do uso eficiente dos recursos públicos e da construção de indicadores que apontem caminhos. “Planejar com base em estatísticas, construir indicadores e estudos que apontem caminhos é essencial para aplicarmos melhor os recursos públicos. Parcerias como essa ampliam nossa capacidade de acerto”, afirmou.
Para Walter Pinheiro, diretor de Relações Corporativas e Governamentais do SENAI Cimatec, a leitura correta dos dados é o que permite compreender o presente e projetar o futuro. “O momento exige repensar a soberania a partir das experiências e capacidades instaladas”, pontuou.
A edição 2025 da conferência traz ainda uma agenda internacional inédita. Salvador recebe a Reunião Especializada de Estatísticas do Mercosul (REES), parte da presidência rotativa do bloco, atualmente exercida pelo Brasil, reunindo as chefes dos institutos de estatística de Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil. A programação inclui também a mesa Bioma Amazônia, que contará com representantes de Colômbia, Equador, Peru, Venezuela e Brasil, além de atividades promovidas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
A participação de especialistas nacionais e internacionais contribuirá para consolidar a proposta do Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas (PGIEG), que definirá as bases da produção de dados oficiais do Brasil entre 2026 e 2030. Ao colocar a Bahia no centro dessa discussão, a conferência reafirma a importância do estado e do país na construção de um futuro sustentado por informação de qualidade, planejamento estratégico e soberania digital.