A+ A-

Notícias

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

“Precisamos entregar este bastão, chamado planeta, para as próximas gerações, em condições deles viverem com dignidade” defende Paulo Hartung

Atual presidente Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), o ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung esteve em Salvador, nesta quarta-feira (7), como convidado do IV Congresso Brasileiro de Eucalipto (IV CBE). Durante coletiva de imprensa do evento, ele, que também é economista, falou sobre a demanda mundial de celulose e a oportunidade que o Brasil tem neste cenário, além de se posicionar sobre o desmatamento ilegal no país.

A impressão de papel vem caindo no mundo. No entanto, a demanda por celulose cresce. Como o Brasil se encontra neste cenário?

A demanda por celulose está crescendo e o Brasil não pode perder esta oportunidade. Nós somos competitivos com o mundo. Mesmo durante todo este período de crise, o setor cresceu. E é uma atividade que gera empregos e renda, contribui para a preservação das áreas de reserva natural, gera energia e ajuda a desenvolver socialmente as comunidades onde atua. A sociedade precisa saber mais sobre o plantio de florestas. Quando se olha uma fazenda do setor, vê-se a área plantada, mas também a reserva legal, a APP bem tratada, o setor tem esta marca importante: reserva mais do que determina o Código Florestal. O país tem 7.8 milhões de hectares plantados, corresponde a apenas 1% do território nacional. O que pudermos fazer de produção combinando também recuperação e preservação, é isso que temos que levar para o mundo.

A maior parte das pessoas ainda associa a atividade à destruição de mata nativa?

Isso é preciso dizer. O plantio vem sendo feito em áreas degradadas por outras atividades. O plantio produz retenção de CO2 e 74% das florestas brasileiras são certificadas, pelo cumprimento de diversos critérios de exigência, inclusive trabalhistas. Esta é uma atividade com alto índice de formalidade nas relações trabalhistas, resultando num ambiente de negócios saudável. Além disso, esta indústria vem investindo muito em pesquisa aplicada. Com isso, há vários novos produtos e soluções em estudo no país.

Qual a posição da Bahia nesta indústria?

A Bahia é o 4° estado com maior parte plantada no nosso país, com grande produção de celulose. Há aqui grandes grupos, com uma atuação sólida e alta produtividade. A celulose é um dos principais produtos de exportação do estado. Por outro lado, a indústria local de móveis ainda precisa comprar madeira de outros estados. É preciso mais investimentos. Precisamos evoluir nesta atividade, que dialoga com o presente e com o futuro.

O que a Bahia precisa para receber mais investimentos?

Mais infraestrutura e segurança jurídica, principalmente, de acordo com os dirigentes da Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf).

Na sua opinião, o que fazer para estimular que o país invista mais nas árvores plantadas em detrimento da derrubada de florestas nativas?

Precisamos mostrar à sociedade que esta é uma atividade que tem um olhar amoroso com as próximas gerações. E é nisso que precisamos apostar. A vida é uma passagem de bastão. Precisamos entregar este bastão chamado planeta para nossos filhos e netos em condições deles viverem com dignidade. Nós temos um patrimônio, a Amazônia, que precisamos cuidar e valorizar nos fóruns internacionais.  Nos próximos anos, o mundo vai ter que monetizar este trabalho, de manter a floresta de pé. Acho que há um erro na abordagem destes temas sensíveis, uma postura que precisa ser superada. Veja, até uma parte do Agro já está pedindo ao governo cuidado no trato do tema ambiental, pois isto fecha mercados, que conquistamos duramente nos últimos anos.   Não é questão de brigar. O País precisa ser feliz. A gente vem de um período muito duro, de muita recessão. A recuperação econômica, que começou no ano passado, é medíocre diante dos nossos desafios. É preciso ter senso do que precisa ser feito no país. E se tem uma coisa que não precisa ser feita é piorar nossa imagem mundo afora.

Como o senhor vê a reação do governo à divulgação dos dados sobre o desmatamento na Amazônia?

Eu sou a favor da divulgação dos dados. Ao contrário, os dados são ferramentas para proteger a Amazônia. Proteger a Amazônia é um bem para o Brasil. Nós podemos aumentar a produção sem aumentar a área de plantio. Num mundo que foi obrigado a colocar a questão do clima no topo da agenda, você ter uma área gigantesca com reserva natural é uma baita ativo que o país tem para fazer o diálogo com o mundo. Combater o desmate ilegal é positivo para o Brasil, para que, nos fóruns internacionais, a gente possa debater o papel ambiental da floresta de pé e o serviço que esta floresta tropical está prestando ao mundo.