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segunda-feira, 8 de junho de 2015

A indústria na UTI

Ricardo Alban
 
O aumento dos juros básicos da economia para 13,75% ao ano, anunciado no último dia 3, exige uma reflexão crítica acerca dos mecanismos que vêm sendo adotados pelo governo com o propósito de ajustar a sua política econômica, controlar a inflação e reposicionar o país no rumo do crescimento. Dispensável dizer que é de difícil compreensão o uso abusivo da taxa de juros na atual realidade da nossa economia. Vejamos a dicotomia no uso das ferramentas de política monetária, com base nos seguintes pontos:
1. A maior pressão inflacionária vem dos preços administrados (energia elétrica, gasolina, plano de saúde, transporte etc), os quais não sofrem influência de excesso de demanda e/ou falta da oferta.
2. Existe uma significativa queda do consumo, que já atinge os produtos não duráveis (alimentos, principalmente), sendo mais evidente nos semiduráveis (vestuário, calçados etc) e duráveis.
3. O Sistema Financeiro de Habitação ajustou as condições de financiamento, aumentando juros e reduzindo o financiamento.
4. Todo o sistema financeiro, inclusive o privado, assumiu comportamento extremamente conservador, como acontece em momentos de crise.
5. Os bancos oficiais, a exemplo do Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal, têm afirmado que dispõem de recursos, mas faltam tomadores e bons projetos.
6. A ferramenta de política monetária mais adequada não é a elevação dos juros, mas a absorção da liquidez via os depósitos compulsórios. Estes, além de propiciarem um custo bem menor para a enorme Dívida Publica, podem ser utilizados em uma política de financiamento do setor produtivo, que priorize o equilíbrio entre a oferta e a demanda para a sustentabilidade da inflação futura.
7. Todos os índices de confiança apontam para a retração do consumo e, mais preocupante ainda, o cancelamento e postergação dos investimentos produtivos.
8. A necessidade do ajuste fiscal é indiscutível, muito embora faltem exemplos concretos e, até mesmo, simbólicos nos gastos públicos. Contudo, os ajustes anunciados penalizam em excesso as atividades produtivas, especialmente a indústria. 
A indústria brasileira de transformação vem reduzindo sua participação no PIB de forma preocupante. Caiu de 19,4% em 2004 para 10,9% no 1º trimestre deste ano. O déficit na balança comercial de produtos industrializados foi superior a US$ 88 bilhões em 2014. O atual nível de produtividade não permite ser competitivo no mercado global. Associe-se a isso um custo Brasil exorbitante, decorrente da deficiência em infraestrutura, carga tributária cumulativa e legislação trabalhista obsoleta.
A indústria brasileira, principalmente a de transformação, está na UTI! Precisamos ser proativos para superar esse ciclo de forma responsável, mas, para tanto, devemos ser ouvidos. A indústria sempre será o principal agente econômico indutor do crescimento e do incremento da renda média de qualquer nação.
 
Publicado no Jornal A Tarde - 08/06/2015
 
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