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terça-feira, 18 de abril de 2017

A crise hídrica no estado na agenda do setor empresarial

Arlinda Coelho e Frederico Almeida*
 


De acordo com o Banco Mundial, já são contabilizadas perdas anuais equivalentes a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) global por conta do estresse hídrico. Diante desse cenário, faz-se necessário mudar a cultura empresarial existente de enxergar *a gestão hídrica restrita apenas à medição do consumo de água, não visualizando todos os riscos associados ao negócio.

As empresas restringiam a gestão da água à área operacional, vendo esse recurso como um insumo igual aos outros.  No entanto, a tendência é cada vez mais, centrar esforços na bacia hidrográfica em que estão situadas, dando escala às ações para assegurar a disponibilidade desse insumo, essencial à maioria dos processos produtivos.

Dessa forma, verifica-se que a gestão da água toma maior espaço na agenda das corporações, despertando estratégias a relação direta do estresse hídrico com a recarga dos mananciais.

Os setores de mineração, indústria, agropecuária, geração de energia e abastecimento público são os mais vulneráveis. Segundo Annelise Vendramini, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), dois fatores preocupam: "Os custos associados à cobrança pelo uso dos rios em áreas de maior escassez, que tendem a crescer em função da maior demanda e a redução das licenças para captação, resultante da menor disponibilidade hídrica por conta da erosão e outros impactos ambientais" (http://www.valor.com.br/).


De acordo com o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), a Bahia vive a pior seca dos últimos 50 anos. A estiagem que atinge o estado já reduziu o nível dos mananciais utilizados para o abastecimento humano em diversas áreas.


De acordo com a ANA, o lago de Sobradinho, em março de 2017, atingiu 15,16% do volume útil. Em 2016, final da época chuvosa nas regiões dos mananciais que são afluentes do São Francisco, a barragem estava com 35% do volume útil, despencando 1% no período mais crítico da seca (final de 2016). A projeção do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mesmo considerando a redução da vazão para 600 m³/s, é atingir o volume morto da barragem entre agosto/setembro de 2017.


De acordo com o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema), outras represas também estão com níveis baixos, a exemplo de Bandeira de Melo, em Itaetê/Boa Vista do Tupim, que em 2016 estava com 100% do volume útil, em março desse ano estava com 63%. Assim como a barragem do Apertado, em Mucugê, que caiu de 40% em 2016 para 11%; e a do França, em Piritiba/Miguel Calmon, que passou de 96%, no ano passado, para 39,67%.


Responsável por abastecer 65% de Salvador e região metropolitana, a barragem de Pedra do Cavalo, no Rio Paraguaçu, entre Governador Mangabeira e Cachoeira, está com 23,01% da capacidade. No mesmo período de 2016, a reserva era de 70%.


O restante do sistema é abastecido pelas barragens de Joanes I, Joanes II e com menor contribuição dos reservatórios de Ipitanga I e Ipitanga II.  Salvador conta ainda com a barragem de Santa Helena que, no ponto de captação atual, situado no Rio Jacumirim, encontra-se com 62,16% da sua capacidade total.
A situação requer cuidados porque o período chuvoso mais significativo para a área leste da Bahia, que inclui as bacias hidrográficas do Joanes e do Paraguaçu, tem previsão para se iniciar somente em abril, embora chuvas fortes isoladas possam acontecer até lá. No caso específico da Barragem de Santa Helena, o diálogo precisa ser aprofundado, pois para manter os níveis operacionais dos usuários deverá ocorrer a compatibilização dos usos múltiplos na Bacia.


O Presidente da Embasa, Rogério Cedraz, divulgou no site do Jornal A Tarde  (07.04.17) que as chuvas que atingiram Salvador nos últimos dias não alteraram os níveis das barragens que abastecem a capital baiana e municípios da região metropolitana (217 municípios baianos em situação de emergência – 4 milhões de pessoas atingidas).  Sinalizou que é preciso chover na bacia do Recôncavo Norte, região de Camaçari, Mata de São João e Dias D’Ávila.  


Pontuou, ainda, que medidas emergenciais estão sendo adotadas pela Embasa, a exemplo da instalação de um sistema de bombeamento para fazer a reversão do Lago de Santa Helena para o Rio Jacumirim, que abastece a barragem de Joanes II, com o objetivo de garantir a segurança hídrica em Salvador e Região Metropolitana.


O Governo do Estado também está discutindo/adotando outras medidas: redução de outorga, perfuração de poços RMS, ampliação da captação na Barragem de Santa Helena; plano para irrigação; sistemas de abastecimentos de água simplificados;  criação de linhas de financiamento; incentivo ao reuso de água; campanhas educacionais com foco em uso racional do recurso.


A FIEB está acompanhando as discussões acerca do cenário de estresse hídrico no Estado e vem liderando ações de mobilização de empresários e representantes do Segmento Usuários - Indústria com o intuito de garantir a participação efetiva do setor nas deliberações dos Comitês de Bacias Hidrográficas do Estado.



*Arlinda Coelho e Frederico Almeida integram a SDI/Gerência de Meio Ambiente e Responsabilidade Social FIEB

 

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